15/08/2013 13h34

Como desenvolver nos filhos pequenos o hábito de praticar atividades físicas prazerosas

Os irmãos Gustavo, de 7 anos, e Mariana Hoshima, de 5. Além da natação, ele faz judô, e ela balé

Matricular as crianças na academia na esperança de formar campeões olímpicos pode ser o caminho mais rápido para criar adultos sedentários. O segredo para forjar atletas do cotidiano – aquelas pessoas que podem não ser profissionais do esporte, mas não vivem sem uma dose generosa de atividade física em sua rotina – tornar a prática esportiva prazerosa desde a infância. Sem cobranças excessivas por parte dos pais ou treinadores. Sem a busca pelo desempenho. O troféu é uma vida mais saudável. “A satisfação gerada pela prática de esportes desde a infância induz as crianças a desenvolver uma espécie de dependência”, afirma o fisiologista Turibio Leite de Barros. Uma dependência do bem, que melhora o condicionamento físico, previne a obesidade e desenvolve habilidades sociais.

A administradora Jacqueline Gaspar Roviezzo, de 33 anos, diz que faz questão de não cobrar desempenho de Matheus, de 5 anos, e Marina, de 2 anos e meio. Eles começaram na natação ainda bebês. Agora também fazem judô. “Os dois estão um pouquinho acima do peso, no limite do tolerável, e têm histórico familiar de obesidade”, afirma Jacqueline. “Isso me preocupa. Mas penso que a melhor forma de lidar com essa questão é ensiná-los desde já a ter hábitos saudáveis.”

A prática de atividades esportivas também traz um benefício pouco divulgado. Estudos sugerem que os exercícios promovem mudanças no cérebro que ajudam as crianças a aprender mais. Eles aumentam a quantidade de neurônios e facilitam as conexões dessas células na área do cérebro responsável pela memória e pelo aprendizado, o hipocampo. Isso significa que uma criança ativa é capaz de armazenar mais informações e de dar respostas mais rápidas do que uma sedentária. “Ocorrem modificações estruturais e neuroquímicas no cérebro”, afirma Ricardo Mario Arida, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essas alterações morfológicas e funcionais foram encontradas por Arida e um grupo de cientistas da Unifesp e da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, numa pesquisa recente com ratos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as crianças entre 5 e 17 anos façam pelo menos 60 minutos de atividades físicas por dia. Vale até caminhada. Os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com alunos de 2.842 escolas públicas e particulares das capitais, sugerem que as crianças brasileiras estão longe de cumprir a meta. Dos 109 mil estudantes entrevistados, apenas 30% praticam mais de 300 minutos por semana de atividades físicas. Ao longo de sete dias, a média é de 40 minutos diários – abaixo da recomendada pela OMS. “Embora as crianças sejam naturalmente ativas, elas são seduzidas pelo sedentarismo por causa dos entretenimentos da modernidade, como computadores ou videogames, e pela falta de espaço e de segurança para brincar livremente”, afirma Turibio de Barros.

O exemplo que vem de casa é poderoso para criar nas crianças o hábito de praticar esportes. A executiva de contas Angela Simões, de 47 anos, diz que nunca precisou se esforçar para que a filha, Maria Carolina, de 10, se exercitasse. Ela e o ex-marido, corredor de meia maratona, sempre gostaram de malhar. “Fazia musculação e levava a Carol à academia para me acompanhar desde pequenininha”, afirma Angela. “Sempre permiti que escolhesse o que queria fazer. Ela começou no balé aos 3 anos e continua até hoje. Já fez jazz, caratê, basquete, handebol e, desde o início do ano, também está na ginástica artística. Encaro o esporte como um dos prazeres da vida, como sair para jantar ou ver um bom filme. Procuro passar isso para a minha filha.”

Além de recreativa, a atividade física na infância precisa ser inclusiva. “As crianças são competitivas por natureza, mas procuramos não superestimular essa característica nas muito pequenas”, diz Claudia Sant’Ana, coor­denadora técnica da academia Runner São Caetano. “Quando fazemos festivais de natação para esse público, todos ganham medalha e sobem no mesmo lugar do pódio.” Os estudos recomendam que esportes coletivos, que favorecem a socialização, sejam propostos a partir dos 5 ou 6 anos. Antes disso, os individuais são mais adequados. O ideal é que pais e professores não incentivem a criança a se destacar. Cobranças exageradas podem abalar a autoestima e causar insegurança. “Não podemos ensinar que só o primeiro lugar tem valor”, afirma Raphael Zaremba, professor de psicologia e esporte da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. “O conceito de saúde e não de competição deve prevalecer”, diz Eduardo Netto, diretor técnico da academia Bodytech.

Para que as crianças não desistam das atividades, é importante que os pais levem em consideração as afinidades dos filhos. Se obrigadas a fazer um esporte de que não gostam, elas podem criar aversão. A professora Cristina Tiba, de 41 anos, encontrou um meio-termo. Matriculou os filhos Gustavo e Mariana na natação pelos benefícios do esporte à saúde. Como as crianças não gostam de piscina, Cristina propôs um acordo. Para compensar a obrigação, os filhos escolheram modalidades complementares. Gustavo, de 7 anos, está no judô. Mariana, de 5, no balé. “A academia já está completamente incorporada à rotina”, diz Cristina. Além de melhorar o condicionamento das crianças – a alergia respiratória de Gustavo quase desapareceu – , a mãe notou que as atividades ajudaram a desenvolver habilidades motoras e sociais. “A Mariana, que sempre foi mais extrovertida e despachada, melhorou na coordenação motora e no equilíbrio”, diz Cristina. “O Gustavo está menos tímido e mais concentrado.”

Se bem conduzida, a prática esportiva pode ensinar a criança a testar seus próprios limites, a lidar com o prazer da vitória e com a frustração da derrota, a seguir regras e a respeitar a autoridade representada pela figura do técnico ou do árbitro. É a reprodução em pequena escala da vida em sociedade. “Os exercícios têm um caráter social e afetivo, porque estimulam a convivência com outras pessoas”, diz o professor Mauro Guiselini, autor de diversos livros sobre o assunto. São lições que a criança levará para a vida toda.

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